Bosquet, Isabelle; Estudante; 19200102; Centro Universitário Belas Artes,
isa.bosquet470@gmail.com¹
Resumo: O presente artigo tem como intuito estudar melhor o modelo de paisagismo abordado pela arquiteta e paisagista Gabriella Ornaghi em um de seus projetos, a Praça Cipriano, localizada na cidade de São Paulo, focando, principalmente, no valor histórico do local e quais maneiras foram encontradas para suprir as necessidades da população e como o paisagismo se caracteriza no projeto.
Palavras-chave: Paisagismo; análise; praça; arquitetura.
Abstract: This article aims to better study the landscaping model approached by the architect and landscaper Gabriella Ornaghi in one of her projects, Praça Cipriano, located in the city of São Paulo, focusing mainly on the historical value of the place and what ways were found to meet the needs of the population and how landscaping is characterized in the project.
Keywords: Landscaping; analyze; square; architecture.
Introdução
Esse estudo visa analisar as técnicas e visões da arquiteta Gabriella Ornaghi, evidenciando seu modelo de trabalho e paisagismo, passando brevemente por seu histórico profissional e abordando a linha de pensamento seguida por ela e seu escritório, para que, assim, o diagnostico paisagístico do projeto seja efetivo e entendido como um todo.
Ao interpretar a linguagem da arquiteta, focou-se, sobre tudo, na Praça, e o fator indispensável para entendimento de tal, sua história. Abordando como um bom projeto, que analisa, desde o princípio, todos os fatores de uma região, cria uma personalidade única.
As fontes usadas como base para essa pesquisa foi o próprio site do escritório de arquitetura da arquiteta, Gabriella Ornaghi Bianca Vasone Arquitetura da Paisagem, o site escavador, entrevistas e matérias jornalísticas, além de livros.
¹ Nasci em 04 de Julho de 2000, em Presidente Prudente, SP, me formei no ensino médio em 2017, e atualmente curso Arquitetura e Urbanismo no Centro Universitário Belas Artes, na cidade de São Paulo.
1.1 Arquiteta
A arquiteta paisagista Gabriella Ornaghi se formou na FAU/Universidade Presbiteriana Mackenzie no ano de 2004, trabalhando desde a faculdade em projetos de arquitetura paisagística. Três anos após sua formação, idealizou e fundou seu escritório de arquitetura, juntamente com sua amiga e sócia Bianca Vasone, também formada na FAU/Mackenzie no ano de 2004.
O escritório, que leva seus nomes, defende a ideia de uma arquitetura da paisagem, abordando desde a técnica até a criatividade, respeitando sempre a natureza e suas limitações. Como toda arquitetura paisagística, o foco é sempre integrar o meio ambiente a arquitetura, gerando projetos consistentes e belos, como citam em seu site:
Compor a flora, manipular substratos, arranjar relevos, imprimir texturas, jogar com os elementos, subverter o concreto: Arquitetar a paisagem. (ORNAGHI Gabriella, VASONE Bianca, 2022)
Figura 1: Gabriella Ornaghi e Bianca Vasone
Fonte: Gabriella Ornaghi Bianca Vasone Arquitetura da Paisagem, 2022.
Ao longo de sua jornada de trabalho, Ornaghi participou de vários concursos, vencendo muitos deles, como o Concurso Nacional para a Sede da Confederação Nacional de Municípios em 2010 ficando em 1º lugar e o Concurso Nacional de Arquitetura para Sede IAB/DF + CAU/BR, também conquistando o 1º lugar.
³ Políticas habitacionais no Brasil.
Link: Políticas habitacionais no Brasil | Nexo Políticas Públicas (nexojornal.com.br)
1.2. Processo criativo
Em seu site, Ornaghi diz ‘tenho uma grande preocupação em criar um desenho em que as propriedades arquitetônicas se integrem ao meio ambiente, pensando sempre de uma forma funcional e estética’ (ORNAGHI, Gabriella, VASONE, Bianca, 2022). Ela mostra, ao longo de sua carreira que, a maneira como a arquitetura trata o meio ambiente, define o futuro do Mundo, olhando sempre a melhor alternativa para desenvolver seus projetos.
O processo de desenvolvimentos, buscou sempre interpretar a natureza para reproduzir suas singularidades na cidade, criando sempre um projeto que respeite cada particularidade de ambos. Como cita em seu site.
Na criação de ilhas de conservação de biodiversidade vegetal em meio antrópico, os arranjos florísticos e métodos de ajardinamento propostos têm como objetivo a eco gênese, ou seja, a criação de sistemas ecológicos modulares integrados com o meio natural remanescente, o que transpõe o simples intuito da beleza cênica e requalifica o paisagismo, alinhando sua consonância com os desafios contemporâneos relacionados ao meio ambiente e qualidade de vida.
(ORNAGHI, Gabriella, VASONE, Bianca, 2022)
Ao ser contratada, Gabriella diz que parte para uma análise inicial da paisagem, desenvolvendo, a partir desta, um partido arquitetônico, respeitando sempre o bioma do local. Para esse diagnóstico do meio ambiente, ela estuda as características do relevo, do solo, da hidrografia e da flora da região, compondo um estudo preliminar, para começar a compor o projeto.
A especialidade de sua equipe, multidisciplinar, são projetos de paisagismo e urbanismo, recomposição da flora e reformas paisagísticas, assessoria, consultorias, palestras e jardinagem.
2.3. História Praça Cipriano
A Praça Cipriano se localiza na Vila Ipojuca, em São Paulo, uma região residencial, bem localizada, ruas de fácil acesso e comércio local, o seja, infraestrutura completa.
⁵ Para povoar sua colônia, Portugal enviou exilados ao Brasil, boa parte dos europeus que se mudaram no século 16 não tiveram a menor escolha. Eram condenados ao exílio.
Leia: https://super.abril.com.br/especiais/doce-exilio/
Sua trajetória passa por enfoques incríveis, como ter sido, em meados de 1910, o ponto final da primeira linha de bondes da cidade de São Paulo, um marco para a região e a cidade, a história que formou os moradores que lá se encontram.
Na atualidade, o ponto de ônibus que há na praça, mostra mais um pouco de sua importância documentada, esse abrigo único foi construído na década de 1960, abordando um design daquela época e sendo o único existente até hoje.
Figura 2: Ponto de ônibus mais antigo de São Paulo
Fonte: São Paulo Antiga, atualização, 2015.
2.2. Projeto Praça Cipriano
Hoje em dia, o local é um centro de convergência dos fluxos. À princípio, eles analisaram e viram todo o potencial que a área tinha para proporcionar convívio entre os moradores. Seu projeto foi uma doação iniciada conjuntamente com o arquiteto Danilo Terra, que mora no bairro, e a Gabriella Ornaghi, feita para os habitantes daquela região.
Para criação do projeto, tomaram como partido arquitetônico o fluxo e permanência dos moradores, focando em projetar um lugar em que fosse possível a realização de eventos locais, tanto populares quanto culturais. Mas
para isso, respeitaram a importância dos equipamentos urbanos presentes no local, como o famoso e histórico ponto de ônibus e uma pequena banca de revistas.
Ao analisar a região, Ornaghi e Terra constataram que havia um remanescente de áreas permeáveis como consta no site de Gabriella.
[…] espécies vegetais nativas do bioma da Mata Atlântica, de diferentes estratos florestais, pudessem conformar uma amostra de uma ilha de conservação do patrimônio biológico daquela região, a fim de favorecer o meio ambiente e configurar a paisagem do lugar.
(ORNAGHI, Gabriella, VASONE, Bianca, 2022)
Figura 3: Projeto paisagístico da Praça Cipriano
Fonte: Gabriella Ornaghi Bianca Vasone Arquitetura da Paisagem, 2022.
2.3. Características do projeto
O local onde a praça se encontra é uma região com uma declividade considerável, para respeitar esse desnível, eles projetaram platôs para que as pessoas pudessem utilizar a praça como um todo e, em caso de eventos, lugares para apreciá-los considerando cada possível público.
Como composição, pensaram em cada necessidade e, para oferecer uma qualidade de vivencia, desenvolveram uma área de academia funcional, um play ground para as crianças e um palco singelo para apresentações.
O desenho abrange escadas que desenham a paisagem, juntamente com uma incrível arborização, evidenciando a singularidade e o potencial do local. Como podemos observar, o projeto evidencia o pensamento paisagístico do século XXI, tendo como base o estudioso e professor paisagístico Dr. Silvio Soares Macedo.
[…] tem como concorrente uma nova visão de espaço, que incorpora velhas tradições, velhos preceitos à novas técnicas, que indicam a mistura de figuras até então obsoletas aos conceitos mais avançados e que traz de vez os princípios ambientalistas para o espaço livre.
(Macedo, Silvio S., O PAISAGISMO MODERNO BRASILEIRO – ALÉM DE BURLE MARX, 2003)
2.4. Vegetação utilizada
Para seleção da vegetação, eles priorizaram desde a estética até a funcionalidade, cumprindo os limites ambientais. A princípio, um Jequitibá Rosa (Cariniana legalis) foi proposto para ser o marco central da praça.
Figura 4: Projeto paisagístico da Praça Cipriano
Fonte: Gabriella Ornaghi Bianca Vasone Arquitetura da Paisagem, 2022.
Para revitalizar a região e trazer mais vida, adicionaram também ao projeto espécies frutíferas como a Pitangueira (Eugenia uniflora), a Uvaia
(Eugenia uvalha) e a Goiabeira (Psidium guajava), além de uma horta comunitária.
3. Considerações finais
Praças nem sempre são valorizadas como devem ser, sua importância é singular, mas seu marco é histórico e único para cada parte da sociedade, principalmente para aqueles que vivem em seu entorno. Ao olhar para a Praça Cipriano, é notória suas particularidades como um ponto histórico no desenvolvimento do transporte público, sendo desde um ponto final de uma linha de bonde, até a criação e permanência de um ponto de ônibus que marcou várias gerações.
Como muitos espaços públicos, essa praça acabou sendo deixada de lado, tornando-se descuidada. Mas esse desleixo acabou chamando a atenção dos moradores do bairro da Vila Ipojuca e, assim, levantaram a possibilidade de restaurá-la, pois sua importância fazia parte da vida de cada um.
Esse projeto levou em consideração a memória de um lugar, percebe-se que, desde o início, os arquitetos estudaram o local, e viram as necessidades que o projeto deveria atender. E para isso, criaram um desenho nesta praça, com linhas retas e ângulos diversos, uma declividade usada a favor de um projeto, uma natureza regional respeitada e, principalmente, a revitalização da qualidade de vida dos moradores.
Um local não limita seu uso se a visão do autor transcender para além do comum, como ocorreu nesse projeto, com um local relativamente pequeno, mas que é frequentado excessivamente, por causa de uma necessidade humana, a locomoção.
Seguindo um bom partido, a escolha de cada espécie de plantas é essencial para que cada projeto tenha uma personalidade única, e se a região e solo serem respeitados, o lugar ganhará vida, e as pessoas começarão a aproveitar cada detalhe, dando qualidade de vida para a população, e nesse
projeto, foi notória a presença de escolhas feitas unicamente para aquele local, estudos de como a cidade se comportavam em seu entorno, quais relações aquele público tinham com o local, entendendo suas necessidades, assim, a qualidade se dá em cada detalhe, partindo do arquiteto, como disse Roberto Burle Marx.
[…] tem como concorrente uma nova visão de espaço, que incorpora velhas tradições, velhos preceitos à novas técnicas, que indicam a mistura de figuras até então obsoletas aos conceitos mais avançados e que traz de vez os princípios ambientalistas para o espaço livre.
(Macedo, Silvio S., O PAISAGISMO MODERNO BRASILEIRO – ALÉM DE BURLE MARX, 2003)
Ser arquiteto paisagista é ser um historiador, é saber respeitar o que a natureza oferece e analisar a história de cada local, entendendo que são ligados, sendo como algo único. E, em projetos como esse, vemos como um arquiteto de fato deve ser, passo a passo, seguindo uma linha de pensamento e análise, para que um bom desenvolvimento seja feito, necessita pensar nas pessoas, no ambiente, na fauna e flora, na história e na arquitetura.
Referências
ARBO. Como é morar em Vila Ipojuca. Disponível em: https://www.arboimoveis.com.br/bairros/vila-ipojuca-sao-paulo-sp. Acesso em: 6 mar. 2022.
ESCAVADOR. Gabriella Trombetti Ornaghi. Disponível em: https://www.escavador.com/sobre/12189500/gabriella-trombetti-ornaghi. Acesso em: 6 mar. 2022.
GABRIELLA ORNAGHI BIANCA VASONE ARQUITETURA DA PAISAGEM. Equipe. Disponível em: https://gabriellaornaghi.com.br/equipe/. Acesso em: 6 mar. 2022.
GABRIELLA ORNAGHI BIANCA VASONE ARQUITETURA DA PAISAGEM. Praça Cipriano. Disponível em: https://gabriellaornaghi.com.br/2017/10/03/praca-cipriano-2/. Acesso em: 6 mar. 2022.
GABRIELLA ORNAGHI BIANCA VASONE ARQUITETURA DA PAISAGEM. Sobre. Disponível em: https://gabriellaornaghi.com.br/trabalho-2/. Acesso em: 6 mar. 2022.
MACEDO, D. S. S. O PAISAGISMO MODERNO BRASILEIRO : ALÉM DE BURLE MARX. PAISAGENS EM DEBATE revista eletrônica da área Paisagem e Ambiente, São Paulo, v. 1, n. 7, p. 1-6, out./2003. Disponível em: https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/56484401/burle1-with-cover-page-v2.pdf?Expires=1646574387&Signature=XFuL4cRudSr8wd4-0xj2Zq6Hcwjl0Ig7Oofg8ckNw9NMuC8pyjK5qEPMSEzxeFXrVWAyizDuFbPS9TKWuFWxTXVfL8rJxCYrlK1qBl1tHWxgGezG7ug3cDRyadZQWCjAQEU6cY2ul60ucOcsycB9ZmAAV30R1yCNVp3zg5e~mV~AlaUATRDfMPMi83fi~3BAKQ. Acesso em: 6 mar. 2022.
SÃO PAULO ANTIGA. O ponto de ônibus mais antigo de São Paulo. Disponível em: https://saopauloantiga.com.br/o-ponto-de-onibus-mais-antigo-de-sao-paulo/. Acesso em: 6 mar. 2022.
VITRUVIUS. Roberto Burle Marx e o jardim moderno brasileiro. Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/02.006/3346?page=5. Acesso em: 22 mar. 2022.